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R$ 29,90 ou R$ 30: o preço quebrado vende mais?

Preço quebrado vende mais? Um experimento com 4.788 decisões não achou efeito. Veja o que os estudos mostram e quanto o centavo vale na sua base.

Ilustração de duas etiquetas ovais em branco penduradas lado a lado numa barra, em índigo, violeta e rosa

Existe uma pergunta que todo criador faz no minuto de fechar o preço do acesso VIP, e quase ninguém responde com dado: preço quebrado vende mais que preço redondo? A resposta honesta é que a evidência publicada é mais fraca do que o folclore de marketing sugere, e que, no tamanho de base de quase todo criador, a diferença é invisível.

Resposta primeiro: o estudo de campo mais citado encontrou sim um efeito de terminação em 9, mas num contexto de catálogo de varejo americano. Um experimento controlado de 2022, com 266 participantes e 4.788 decisões de compra, não encontrou efeito nenhum. E um terceiro estudo mostrou que o efeito aparente some quando a análise inclui os produtos substitutos. Enquanto isso, na sua base, a terminação vale dez centavos por venda e o valor do preço vale cinquenta vezes mais.

A seguir: o que cada um dos três estudos achou, por que eles discordam, quanto o centavo realmente vale em reais numa base concreta, e qual regra usar para fechar o preço sem depender de psicologia duvidosa.

Preço quebrado vende mais? A resposta curta

Resposta primeiro: talvez, num efeito pequeno, em contextos específicos, e você não tem base para medir isso.

Vale separar duas perguntas que costumam vir grudadas. A primeira é "existe um efeito de terminação de preço no comportamento humano?", que é pergunta de pesquisa e tem resposta dividida. A segunda é "esse efeito vai aparecer na minha oferta de acesso VIP com cento e cinquenta assinantes?", que é pergunta de operação e tem resposta clara: não de um jeito que você consiga distinguir de ruído.

Este artigo cuida da segunda. A definição do valor em si, com margem, posicionamento e faixa de mercado, está em como precificar acesso VIP no Telegram, e o tamanho de base necessário para um teste de preço dizer alguma coisa está em testar preço com base pequena.

O estudo que encontrou efeito, e onde ele encontrou

Resposta primeiro: Anderson e Simester, em 2003, manipularam terminações de preço em três experimentos de campo e a terminação em 9 aumentou a demanda nos três.

O trabalho saiu na revista Quantitative Marketing and Economics e é a referência que sustenta praticamente tudo que se escreve sobre o assunto. O resumo publicado pela Kellogg School of Management começa reconhecendo o problema que motivou a pesquisa: "Although the use of $9 price endings is widespread amongst U.S. retailers there is little evidence of their effectiveness".

Dois detalhes do resultado importam mais que o resultado em si, e quase nunca são citados junto.

O primeiro é que o efeito foi mais forte em itens novos do que em itens que o varejista já vendia em anos anteriores. A explicação dos autores é que a terminação ajuda quando o cliente tem informação incompleta sobre o produto. Traduzindo para o seu caso: o efeito, se existir, tende a aparecer em quem nunca viu sua oferta, e não em quem acompanha seu canal há meses e já sabe o que o VIP entrega.

O segundo é o contexto: catálogo impresso de varejo nos Estados Unidos, com dezenas de itens comparáveis na mesma página. Uma oferta única de assinatura, apresentada isolada dentro de um bot, não é esse ambiente. Caso de borda em que a lição vale mesmo assim: se você tem uma vitrine com vários pacotes lado a lado, aí sim está mais perto do desenho original do estudo.

O experimento grande que não encontrou nada

Resposta primeiro: em 2022, um experimento on-line com 4.788 decisões de compra não conseguiu reproduzir o efeito de terminação.

O estudo é de Fenneman, Sickmann, Füllbrunn, Goldbach e Pitz, publicado na PLoS ONE com um título que já entrega o achado: os resultados de um grande experimento on-line falham em reproduzir tanto o efeito de dígito à esquerda quanto o de fluência perceptual. Foram 266 participantes válidos, decidindo comprar ou não bilhetes com preços em três condições: terminação logo abaixo do valor redondo, valor redondo, e um controle com centavos aleatórios.

Taxa de compra por condição de terminação de preço no experimento de 2022Gráfico de barras horizontais com a proporção de decisões de compra em cada condição do experimento publicado na PLoS ONE em 2022. Terminação logo abaixo do valor redondo, 47,1 por cento. Valor redondo, 45,9 por cento. Controle com centavos aleatórios, 45,3 por cento. As três barras têm comprimento quase igual, e a diferença de 1,8 ponto entre a maior e a menor não alcançou significância estatística. Barra maior significa mais gente comprando. Quem comprou em cada terminação de preço (2022) Barra maior é mais gente comprando. 266 participantes, 4.788 decisões. Terminação quebrada 47,1% Valor redondo 45,9% Controle (centavos aleatórios) 45,3% Diferença de 1,8 ponto entre a maior e a menor, sem significância. Fonte: Fenneman e outros, PLoS ONE, 2022. Compra de bilhetes de loteria. Escala do eixo: 0 a 50 por cento de decisões de compra.
Dados de Fenneman e outros, PLoS ONE, 2022.

As três barras contam a história sozinhas. Na conclusão dos autores, "against expectations, we found no support for either of the two price-perception effects". Ressalva honesta que o próprio desenho impõe: o objeto comprado eram bilhetes de loteria, com valores baixos, num ambiente de laboratório on-line. Isso não é venda de assinatura, e um resultado nulo em laboratório não prova que o efeito não existe em lugar nenhum. Prova outra coisa, que é o ponto deste artigo: o efeito não é grande e robusto o bastante para aparecer em qualquer desenho.

Quando o efeito some: o achado de 2013

Resposta primeiro: um experimento de campo encontrou um aumento de vendas ao remover a terminação em 99, e o aumento desapareceu quando a análise passou a olhar os substitutos.

O trabalho é de Antonio Filippin, publicado no Journal of Economics and Management em 2013 e catalogado no RePEc. No resumo, o aumento de vendas aparece nas estatísticas descritivas e num modelo com o item tratado como única variável dependente, mas "such a counterintuitive effect does not survive in a differences-in-differences model in which the daily sales of all the relevant substitutes are jointly analyzed". O que explicava a diferença era a elasticidade-preço distinta do item, não a terminação.

Esse é o achado mais útil dos três para quem vende, porque ele não fala sobre psicologia, fala sobre método. Um efeito que aparece quando você olha só o item e some quando você olha o conjunto é exatamente o tipo de efeito que qualquer criador vai "observar" ao mudar o preço num mês em que outras cinco coisas também mudaram.

Quanto o centavo vale na sua base, em reais

Resposta primeiro: numa base de 150 assinantes, a terminação decide R$ 180 por ano e o valor do preço decide R$ 9.000.

Cálculo deste artigo, com a premissa declarada de 150 assinantes ativos pagando todo mês, sem considerar cancelamento:

Preço mensal Receita no mês Diferença anual vs R$ 29,90
R$ 29,90 R$ 4.485,00 referência
R$ 30,00 R$ 4.500,00 R$ 180,00
R$ 31,90 R$ 4.785,00 R$ 3.600,00
R$ 34,90 R$ 5.235,00 R$ 9.000,00

A leitura de três segundos é a que interessa: a decisão da terminação e a decisão do valor não estão na mesma ordem de grandeza. Trocar de R$ 29,90 para R$ 30,00 mexe em 0,3% da receita. Trocar para R$ 34,90 mexe em 16,7%. Quem gasta uma semana escolhendo entre 29,90 e 29,97 está aperfeiçoando a menor alavanca que tem na mão, enquanto a maior segue parada.

E existe uma alavanca ainda maior do que o preço, que é o tempo que o preço fica parado. O acumulado de inflação de três anos, detalhado em reajustar preço pela inflação, tira mais poder de compra do que qualquer escolha de terminação já devolveu para alguém.

A regra prática para fechar o preço

Resposta primeiro: decida o valor pela margem, escolha uma terminação por estética e use a mesma em toda a linha.

O passo concreto tem três partes, nessa ordem. Primeiro, defina o valor pelo que a operação precisa entregar de margem e pelo que a sua oferta vale perto das alternativas. Segundo, escolha uma terminação e pare de pensar nela. Terceiro, e esse é o que rende de verdade, mantenha a mesma terminação em todos os planos, porque comparar R$ 29,90 com R$ 79,90 é mais fácil para o cliente do que comparar R$ 29,90 com R$ 82,00. Esse ganho de comparabilidade é real, não depende de efeito psicológico e ajuda direto na escolha entre planos, assunto que o artigo sobre order bump no Telegram trata do lado do momento da compra.

Contra-argumento honesto, e ele existe: se a sua oferta aparece numa vitrine com vários pacotes visíveis ao mesmo tempo, você está mais perto do ambiente em que o estudo de 2003 achou efeito. Nesse caso, usar a terminação quebrada é aposta barata. Só não confunda aposta barata com estratégia.

Um detalhe do modelo de cobrança fecha a conta. Com taxa percentual por venda, cada real que você adiciona ao preço leva uma fatia junto para a ferramenta. Com taxa fixa por transação, o aumento fica inteiro com você, e a diferença entre as duas decisões de preço da tabela acima cresce ainda mais a seu favor.

Erros comuns

  • Tratar a terminação como técnica comprovada. Um estudo de campo achou efeito, um experimento grande não achou e um terceiro mostrou o efeito sumindo na análise correta.
  • Testar terminação na própria base. A maior diferença publicada foi de 1,8 ponto percentual sem significância; para enxergar isso seriam necessários milhares de visitantes.
  • Trocar de terminação a cada campanha. O ganho real da terminação é a comparabilidade entre os seus planos, e ela depende de consistência.
  • Atribuir à terminação o resultado de um mês em que tudo mudou. É exatamente o erro que o estudo de 2013 desmonta com dados.
  • Gastar a energia da precificação no centavo. O centavo vale R$ 180 por ano numa base de 150; cinco reais valem R$ 9.000.
  • Repetir que terminação em 7 converte mais. Não há estudo publicado sustentando a hierarquia entre dígitos.

Conclusão

O preço quebrado não é mentira nem verdade absoluta: é um efeito pequeno, achado em um contexto, não reproduzido em outro e dissolvido quando a análise fica mais rigorosa. Para quem vende acesso VIP, a conclusão prática é liberadora. Você pode parar de procurar o centavo mágico, porque ele decide 0,3% da sua receita enquanto o valor do preço decide cinquenta vezes mais e o tempo parado decide mais ainda.

O próximo passo leva dez minutos e não é sobre terminação: pegue o preço atual, calcule quanto a base inteira rende hoje, simule o mesmo número com cinco reais a mais e veja o que a diferença paga. Depois escolha a terminação que você achar bonita, aplique em todos os planos e não mexa mais. Para ver esse total por plano sem planilha paralela, o registro precisa estar na ferramenta que cobra: crie sua conta e feche o preço com o número na tela.

Perguntas frequentes

Preço quebrado vende mais mesmo?

A evidência é dividida. Um estudo de campo de 2003 encontrou aumento de demanda com terminação em 9 nos três experimentos que fez. Um experimento on-line de 2022, com 4.788 decisões de compra, não encontrou efeito nenhum. Não existe um número confiável para aplicar à sua oferta.

Então vale a pena cobrar R$ 29,90 em vez de R$ 30,00?

Vale se você gosta do visual, não porque a psicologia garante algo. A diferença de dez centavos por venda é real e pequena. A decisão que move dinheiro de verdade é o valor do preço, não a terminação dele.

Quanto a terminação custa numa base de 150 assinantes?

Dez centavos por assinante por mês dão R$ 15 por mês e R$ 180 por ano. Subir o mesmo preço de R$ 29,90 para R$ 34,90 na mesma base rende R$ 9.000 por ano, cinquenta vezes mais.

Dá para testar isso na minha própria base?

Dificilmente. A maior diferença observada no experimento de 2022 foi de 1,8 ponto percentual, e nem essa passou no teste estatístico. Enxergar um efeito desse tamanho exige milhares de visitantes no preço novo.

Por que tanta gente jura que funciona?

Porque a prática é antiga e quase universal no varejo, o que faz ela parecer comprovada. Um estudo de 2013 mostrou que o efeito aparente some quando as vendas dos produtos substitutos entram na análise, ou seja, parte do que se atribui à terminação é outra coisa.

Terminação em 7 funciona melhor que em 9?

Não há estudo publicado que sustente essa hierarquia. É folclore de infoproduto. Se você já usa 7, não há motivo para trocar; se está escolhendo agora, escolha o que combina com a sua comunicação.

E se a minha taxa por venda for percentual?

A terminação muda a taxa em centavos, o que é irrelevante. O que muda a conta de verdade é o modelo: com taxa percentual, todo aumento de preço leva uma fatia junto; com taxa fixa por transação, o aumento fica inteiro com você.

Qual regra usar para fechar o preço, então?

Defina o valor pela margem e pelo posicionamento, escolha uma terminação e mantenha a mesma em toda a linha de produtos. Consistência de terminação ajuda o cliente a comparar seus próprios planos, que é um ganho real e não depende de efeito psicológico.

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