Ticket médio

Produto de entrada: quando o item de R$ 9,90 se paga

Produto de entrada barato só compensa se uma parte dos compradores sobe de oferta. Veja a conta do que ele vale e a taxa de upgrade que fecha.

Ilustração de uma etiqueta de preço com moedas caindo sobre uma escada de blocos em tons de violeta e rosa

Quase todo criador que vende no Telegram chega em algum momento na mesma ideia: criar um item barato, de poucos reais, para trazer gente que ainda não comprou nada. A ideia é boa, mas ela costuma ser avaliada pela conta errada. Um produto de entrada não é julgado pelo lucro que ele dá, porque isoladamente ele quase não dá lucro nenhum. Ele é julgado por quanto do público que entra por ele sobe para a oferta principal depois.

Este artigo mostra a conta que decide isso: quanto sobra de uma venda de R$ 9,90 em cada modelo de cobrança, quanto vale um comprador de entrada conforme a taxa de upgrade, e em que situação esse item destrói mais valor do que cria. O preço dos itens do catálogo em si é tema de como precificar PPV, packs e close friends; aqui a pergunta é outra, sobre a função do item mais barato dentro do funil.

O que é um produto de entrada (e o que ele não é)

Resposta primeiro: é o item mais barato do catálogo, cuja função é converter audiência em cliente pagante pela primeira vez, e não maximizar margem.

A diferença entre a primeira compra e todas as seguintes é maior do que parece. Antes da primeira, a pessoa está decidindo se você existe de verdade, se o pagamento funciona, se o acesso chega. Depois da primeira, ela já sabe. É por isso que o item de entrada compra algo que nenhum argumento de venda compra: prova de entrega, testada com dinheiro real e valor baixo.

Três coisas que ele não é:

  • Não é desconto. Reduzir o preço da assinatura por uma semana é outra coisa, com risco próprio de ensinar o assinante a esperar promoção, tratado em desconto e promoção na assinatura VIP. O produto de entrada é um item diferente, vendido pelo preço cheio dele.
  • Não é combo. Combo agrupa itens para subir o ticket de quem já vai comprar, como mostra combos e pacotes no Telegram. O item de entrada faz o contrário: baixa o degrau para quem não ia comprar nada.
  • Não é amostra grátis. Grátis atrai quem coleta grátis. Uma compra de poucos reais filtra: exige cartão ou PIX, exige decisão, e produz um cliente, com registro, histórico e canal aberto.

Em ticket baixo, a estrutura da taxa decide se sobra alguma coisa

Resposta primeiro: numa venda de R$ 9,90, a diferença entre modelos de cobrança não é de centavos, é de quase um terço do preço.

Essa é a parte que costuma ser descoberta depois de lançar. As tabelas de taxa são comparadas com o ticket principal em mente, e a comparação vira outra quando o valor cai para um dígito. A Hotmart informa uma regra específica para microtransação: em vendas de até R$ 10, a cobrança é de 20%, no lugar do percentual padrão somado à parte fixa. Já um modelo com parte fixa alta, como os R$ 2,49 somados a 8,99% informados pela Kiwify, pesa ainda mais nessa faixa, porque a parte fixa não encolhe junto com o preço.

Quanto sobra de uma venda de R$ 9,90 em cada modelo de cobrança Gráfico de barras horizontais com o valor líquido de uma venda de nove reais e noventa centavos. Com taxa fixa de sessenta e nove centavos, sobram nove reais e vinte e um centavos. Com a regra de microtransação de vinte por cento aplicada a vendas de até dez reais, sobram sete reais e noventa e dois centavos. Com um modelo de oito vírgula noventa e nove por cento somado a dois reais e quarenta e nove centavos de parte fixa, sobram seis reais e cinquenta e dois centavos. Quanto sobra de uma venda de R$ 9,90 Taxa fixa de R$ 0,69 R$ 9,21 Microtransação de 20% R$ 7,92 8,99% + R$ 2,49 fixos R$ 6,52 Barra maior é melhor: mostra o que fica com o criador em cada modelo, na mesma venda de R$ 9,90. Cálculo feito para este artigo.
Regras de cobrança: Hotmart e Kiwify. Valores líquidos calculados para este artigo.

A leitura é direta: o mesmo item de R$ 9,90 rende R$ 9,21 ou R$ 6,52 dependendo apenas de onde a cobrança acontece. Em 100 vendas, a diferença é de R$ 269, o que em ticket baixo costuma ser a margem inteira do produto. A comparação completa entre esses modelos, em todas as faixas de preço, está em Hotmart ou bot no Telegram; o que interessa aqui é o efeito concentrado na faixa mais barata do catálogo, que é exatamente onde o produto de entrada vive.

Quanto vale, de verdade, um comprador de entrada

Resposta primeiro: o valor dele não está na venda de R$ 9,90, está na fração que sobe para a assinatura depois, e essa fração muda o resultado em mais de duas vezes.

O exercício abaixo usa 100 compradores de entrada a R$ 9,90 com taxa fixa de R$ 0,69, e uma assinatura de R$ 39,90 com permanência média ilustrativa de três meses, o que dá R$ 117,63 líquidos por assinante convertido. Os números de permanência são premissa deste exemplo, não benchmark de mercado: troque pelos seus antes de decidir qualquer coisa.

Taxa de upgrade Assinantes gerados Receita total Valor por comprador
0% 0 R$ 921,00 R$ 9,21
5% 5 R$ 1.509,15 R$ 15,09
10% 10 R$ 2.097,30 R$ 20,97
20% 20 R$ 3.273,60 R$ 32,73

Três conclusões saem dessa tabela, e nenhuma delas é sobre preço:

  • O mesmo comprador vale entre R$ 9,21 e R$ 32,73, mais de três vezes de diferença, e quem define isso é a passagem para a oferta seguinte, não o valor da etiqueta.
  • Subir a taxa de upgrade rende mais que subir o preço. Passar de 5% para 10% adiciona R$ 5,88 por comprador. Para conseguir o mesmo efeito mexendo no preço, seria preciso vender o item de entrada a R$ 15,80, com perda de conversão na porta.
  • Sem nenhum upgrade, o item ainda não dá prejuízo, desde que o conteúdo já exista e a entrega seja automática. É esse piso que torna o teste barato.

A lógica é a mesma que sustenta o dado primário do setor: pelo balanço auditado do OnlyFans, compras avulsas responderam por 59% da receita contra 41% de assinatura em 2023, ou seja, a porta de entrada quase nunca é onde o dinheiro está. O detalhe do que vem depois da porta é assunto de assinatura não é o produto.

A taxa de upgrade é o número que você persegue

Resposta primeiro: a passagem acontece em três momentos, e o mais barato deles é o próprio ato da compra.

  • No ato da compra. Quem acabou de decidir comprar é quem tem a menor resistência a acrescentar algo. É o mecanismo do order bump, e é onde a conversão adicional custa zero em mídia e zero em atendimento.
  • Na entrega. A mensagem que entrega o item de entrada é a mensagem mais aberta de toda a operação. Ela precisa entregar o que foi comprado primeiro e, só depois, mostrar em uma linha o que existe do outro lado, com o link pronto.
  • Nos primeiros dias. Quem comprou e consumiu tem contexto fresco. Uma sequência curta, com espaçamento definido como em cadência de mensagens automáticas, captura quem gostou e ainda não decidiu.

O que não funciona é tratar o comprador de entrada como assinante. Ele comprou uma amostra, não um compromisso. A oferta seguinte precisa ser apresentada como continuação natural do que ele já tem em mãos, e não como uma nova venda do zero.

Quando o produto de entrada é má ideia

Resposta primeiro: em três cenários ele destrói mais valor do que cria, e vale reconhecer os três antes de montar.

  • Quando a entrega é manual. Cem vendas de R$ 9,90 são cem cobranças, cem confirmações e cem entregas. Ao custo de tempo levantado em quanto tempo leva para gerenciar as vendas, esse volume come a margem inteira do item e ainda atrasa a entrega, que é justamente a promessa que ele deveria provar.
  • Quando o catálogo já está grande. Cada item novo soma manutenção mensal, e a cobertura de perfis de comprador satura rápido, como mostra quantos produtos vender no Telegram. Se você já tem quatro ofertas, o problema provavelmente não é falta de degrau.
  • Quando ele resolve o problema inteiro. Um item de entrada generoso demais entrega o suficiente para a pessoa não precisar de mais nada. A régua é simples: o item de entrada mostra o formato e resolve uma parte; a assinatura resolve a continuidade.

Como montar o seu sem produzir nada novo

  1. Escolha um recorte do acervo que já existe. Custo marginal próximo de zero é o que faz a conta fechar com taxa de upgrade baixa. Produzir material exclusivo para vender por poucos reais inverte a lógica do item.
  2. Defina o preço em relação à assinatura. Entre 20% e 30% do valor dela mantém a proporção que faz o degrau parecer pequeno sem transformar o item numa esmola.
  3. Escreva a oferta em três linhas. O que é, o que a pessoa recebe na hora e o que existe depois. A terceira linha é a que gera o upgrade.
  4. Automatize a cobrança e a entrega. Sem isso, o item de entrada é um gerador de trabalho manual de baixo valor.
  5. Meça só uma coisa no primeiro mês. A taxa de upgrade. Conversão da vitrine e ticket médio já têm outros donos no seu painel; esse item existe para mover um número só.

Erros comuns

  • Avaliar o item pelo lucro dele. Um produto de entrada que dá lucro sozinho provavelmente está caro demais para cumprir a função de degrau.
  • Ignorar a taxa na faixa mais barata. A regra de microtransação e as partes fixas pesam onde ninguém olha, e transformam 100 vendas em um resultado que não paga o trabalho.
  • Deixar a oferta seguinte para depois. Se a mensagem de entrega não aponta o próximo passo, a taxa de upgrade nasce perto de zero e o item vira só uma venda barata.
  • Criar o item antes de ter o que vender depois. Degrau sem andar de cima é só um item barato no catálogo.
  • Confundir com isca gratuita. Grátis constrói lista, pago constrói cliente. São instrumentos diferentes, e só o segundo prova que o seu pagamento e a sua entrega funcionam.

Conclusão

O produto de entrada é uma decisão de aquisição disfarçada de decisão de preço. Ele não precisa dar lucro: precisa produzir clientes com prova de entrega e abrir caminho para a oferta que sustenta o negócio. As duas variáveis que decidem se ele funciona são a fração que sobe de oferta, que você melhora com a passagem no ato da compra e na entrega, e quanto sobra de cada venda pequena, que depende inteiramente de onde a cobrança acontece.

O segundo ponto é o que muitos descobrem tarde: numa venda de R$ 9,90, um modelo percentual leva de 20% a 34% do valor, enquanto uma taxa fixa de R$ 0,69 por transação fica em 7% e não cresce quando você sobe o preço. Com cobrança e entrega automáticas, o item barato deixa de ser trabalho manual e passa a ser exatamente o que deveria ser: a porta mais fácil de atravessar do seu catálogo.

Perguntas frequentes

O que é um produto de entrada?

É o item mais barato do catálogo, criado para converter quem ainda não confia em você em comprador pela primeira vez. Ele não existe para dar lucro sozinho: existe para transformar audiência em cliente e abrir a porta para as ofertas maiores.

Qual é um bom preço para o produto de entrada?

Um valor que a pessoa decida sem pensar muito, tipicamente entre 20% e 30% do preço da sua assinatura. O número exato importa menos que a relação: precisa parecer pequeno perto do item principal e ainda assim ser uma compra de verdade, com pagamento e entrega.

Produto de entrada é a mesma coisa que desconto?

Não. O desconto reduz o preço do mesmo item por um tempo e ensina o comprador a esperar promoção. O produto de entrada é outro item, menor, vendido pelo preço cheio dele. Um mexe na percepção de valor do principal, o outro cria um degrau antes dele.

Qual taxa de upgrade eu preciso ter para valer a pena?

Não existe número universal, existe a sua conta. No exemplo deste artigo, cada 100 compradores de entrada valem R$ 921 sem nenhum upgrade e R$ 2.097 com 10% subindo para a assinatura. O que decide é comparar o valor por comprador com o custo de atender esse comprador.

A taxa da plataforma muda muito em ticket baixo?

Muda mais do que em qualquer outra faixa. Numa venda de R$ 9,90, uma taxa fixa de R$ 0,69 fica em 7% do valor, enquanto a regra de microtransação da Hotmart cobra 20% em vendas de até R$ 10, e um modelo com parte fixa alta pode passar de um terço do preço.

Posso usar conteúdo antigo como produto de entrada?

Pode, e costuma ser o melhor caminho. Um recorte do acervo que já está pronto tem custo marginal próximo de zero, o que faz a conta fechar mesmo com taxa de upgrade baixa. O que não funciona é produzir material novo e exclusivo para vender por poucos reais.

Produto de entrada canibaliza a assinatura?

Canibaliza quando ele entrega o suficiente para a pessoa não precisar de mais nada. A regra é que o item de entrada resolva uma amostra do problema e a assinatura resolva o problema inteiro, com continuidade. Se o comprador fica satisfeito e some, o item está grande demais.

Preciso de automação para vender um item barato?

Precisa, e é justamente onde ele quebra sem automação. Cem vendas de R$ 9,90 geram cem cobranças, cem confirmações e cem entregas. Feito na mão, o tempo gasto consome a margem inteira do produto de entrada e ainda atrasa a entrega.

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